domingo, 21 de outubro de 2012

Do país da cultura.

Trecho do livro Assim falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche;
(Não me admiro com a intensidade do meu apego a este livro, considerando a identificação tão grande com grande parte das citações e anseios declarados de forma muito criativa pelo autor)

"Longe demais voei no futuro; um calafrio de horror me percorreu.
    E, quando olhei ao meu redor, eis que o tempo era meu único contemporâneo.
    Voei, então, para trás, no rumo de casa- cada vez mais depressa; assim, cheguei até vós, homens do presente, e ao país da cultura.
    Pela primeira vez, tinha olhos para vós e bons propósitos. Na verdade, cheguei com a saudade no meu coração.
    Mas que me aconteceu? Por mais assustado que estivesse- tive que rir! Nunca meus olhos haviam visto uma cara tão sarapintada!
    Eu ria e ria, enquanto o pé ainda me tremia e, também, o coração: "Esta é a patria de todos os potes de tintas!" - dizia comigo
Com cinquenta borrões de cores pintados no rosto e nos membros: assim estaveis lá, sentados, para meu grande espanto, ó homens do presente!
    Com cinquenta espelhos à vossa volta, que lisonjeavam e repetiam vossos jogos de cores!
    Em verdade, não poderíeis usar máscaras melhores, ó homens do presente, do que vossos rostos! Quem iria - reconhecer-vos!
    Totalmente cobertos com os sinais do passado, e também essses com outros sinais pintados por cima: assim vos escondestes bem de todos os intérpretes!
    E ainda quem arúspice quisesse escrutar vossas entranhas: quem ainda acreditaria que tendes entranhas! De cores, pareceis amassados, e de papeluchos colados juntos.
    Todos os tempos e povos lançam variegados olhares através de vossos véus e mantos e cores e gestos, sobraria apenas o suficiente para espantar os pássaros.
    Em verdade, eu mesmo sou o passaro assustado que vos viu uma vez, nus e sem cor; e saí correndo, quando o esceletu acenou, amorável, para mim.
    Ainda preferiria trabalhar de jornal nos infernos e junto das sombras do passado! - Mais gordas e polpudas do que vós ainda são, afinal de contas, as almas do outro mundo!
    Isso, sim, isso é o que me amargura as entranhas: que não vos suporto nem nus nem vestidos, ó homens do presente!
    Tudo o que de inquietande há no futuro e tudo que algum dia fez tremer aves perdidas é ainda, na verdade, mais familiar e tranquilizador do que a vossa "realidade".
    Pois vós falais assim: "Totalmente reais, somos nós, E sem fé nem crendices"; assim bazofiais, inchando o peito - ah, e mesmo sem peito!
    Sim, como poderíeis ter uma fé, ó gente sarapintada! - já que sois pinturasde tudo o que algum dia foi fé!
    Confutações ambulantes, sois vós, da própria fé, e despedaçadores do próprio pensamento. Homens não dignos de fé: assim vos chamo eu, ó homens reais!
    Todos os tempos contendem entre si no palavrório dos vossos espíritos; e sonhos e palavrórios de todos os tempos ainda eram mais reais do que o vosso estar acordados!
    Estéreis, é o que sois: por isso vos falta fé. Mas aquele cuja tarefa foi criar teve sempre, também, seus sonhos proféticos e indicações dos astros - e acreditava na fé! -
    Portas semicerradas, sois vós, junto das quais há coveiros à espera. É esta a vossa realidade: "Tudo merece perecer."
    Ai de mim, que espetáculo overeceis , quando eu vos vejo, homens estéreis, e quão magras são vossas costelas! E houve, entre vós, quem se desse ele mesmo conta disso.
    E falou: "Não foi um Deus que, a furto, me tirou alguma coisa enquanto eu dormia? Em verdade, o suficiente para com ela formar uma mulherzinha!
    Pasmosa é a pobrezadas minhas costelas!" - assim já falou algum dos homens do presente.
    Sim, fazeis me rir, homens do presente! E, especialmente, quando vos espantais de vós mesmos!
    E ai de mim, se não pudesse rir dos vossos espantos e tivesse de bebervossas repugnantes tigelas!
    Mas quero andar leve em ocupar-me de vós, pois tenho coisa pesada para carregar; e o que me faz, se besouros e moscardos venham pousar no meu fardo!
    Na verdade, não ficará mais pesado por isso! E não de vós, homens do presente, me há de vir o grande cansaço.-
    Ai de mim, para onde ainda deverei subir, agora, com o meu anseio! De todos os montes, olho em redor à procura de pátrias.
    Mas não encontrei a minha pátria em parte alguma; errante sou eu em todas as cidades e um descampar de diante de todas as portas de cidades.
    Estrangeiros, são para mim, e motivo de escárnio, os homens do presente, para junto dos quais meu coração, de pouco tempo, me arrastou; e sou expulso de todas as terras pátrias e mátrias.
    Assim, amo somente a terra dos meus filhos, a terra por descobrir, nos mares distantes; para ir à sua procura, icei minha vela.
    Quero compensar nos meus filhos o ser eu filho de meus pais, e, em todo futuro - este presente!
       Assim falou Zaratustra.

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